Testemunho de Pascoal Mocumbi no seu regresso à Gorongosa
Sep 11, 2011 - Parque Nacional da Gorongosa
Recentemente o Parque Nacional da Gorongosa foi visitado pelo Dr. Pascoal Mocumbi, antigo Primeiro-Ministro de Moçambique, o qual tinha tido a oportunidade de presidir no dia 27 de Setembro de 1997 à reabertura oficial do Parque, após o interregno criado pelo longo período de conflito civil. Leia aqui a entrevista de Domingos Muala para saber o que pensa o Dr. Mocumbi deste regresso ao PNG.
Testemunhos do Dr. Pascoal Mocumbi sobre os progressos da Gorongosa
"Para todos aqueles que como eu estiveram em 1997 quando abrimos formalmente o processo de reabilitação o que vejo hoje já não é a imagem que vivemos aqui numa noite e num dia em que a infra-estrutura ainda tinha tanto a desejar... e num ambiente em que no seio das populações havia pouca informação sobre o futuro deste lugar e em que, portanto, tomavam qualquer iniciativa que lhes viesse à cabeça como forma de sobreviver.
Dr. Pascoal Mocumbi acompanhado por colaboradores do PNG
Hoje o que me agradou mais e o que me impressionou mais foi esta parceria entre o Parque Nacional da Gorongosa e as comunidades que vivem, que circundam o Parque.
Tive ocasião de conversar, de ver fisicamente as pessoas, observar a linguagem corporal e tive apreciação de que há a vontade das populações porque sabem com quem se lidar sempre que tiverem alguma dúvida por falta de compreensão daquilo que acontece.
Portanto, saio daqui muito confiante no prosseguimento desse processo que começou e vai levar tempo. Estamos satisfeitos porque este entendimento já não corre risco de voltar para trás. Estou satisfeito por isso. Começaram bem. Perseverem em dar prioridade àquilo que é a razão pela qual fazemos a conservação do ambiente.
A conservação do ambiente é para servir os seres humanos que aqui vivem, das comunidades que aqui vivem e do nosso próprio país, para seu crescimento na criação de um clima em que todos se beneficiam no sentido de criarem o bem-estar.
Sem dúvida está-se mais confortável agora do que aquilo que vivemos em 1997. A qualidade do que consumimos, a manutenção dos lugares onde nos repousamos depois de uma marcha, não deixa em mim qualquer mal-estar. Pelo contrário, vontade de cá voltar.
O que me impressionou mais foram as iniciativas na complementaridade entre a gestão do Parque e os investidores que podem dar mais valia, justamente na parte hoteleira para poderem satisfazer diferentes gostos no lugar de descanso, tornando-o num lugar onde os turistas gostam de voltar porque encontram aquilo que esperam.
Da experiência que eu próprio tive durante este período, e hoje vai ser a terceira noite, é que estou a começar a ver o envolvimento mais profundo na criação de um parque com características muito próprias daquilo que nós somos como nação. E isso lê-se. As pessoas que entram aqui são tanto moçambicanas como de outras nacionalidades. Transpira na nossa maneira de ser. Desde o carinho com que saudamos as pessoas, a informação que damos sobre o nosso passado e o nosso presente. Mas sobretudo a mensagem que damos da nossa própria identidade.
Tive ocasião de ver as iniciativas para o futuro na formação da própria comunidade, informando sobre as características das atividades que desenvolvemos para a conservação do ambiente. E que só podem ter sucesso se houver complementaridade com aquilo que as comunidade conhecem melhor, tanto a fauna como a flora desta região. As comunidades conhecem melhor os lugares que são de tratamento especial no caso das tradições. E transmitir isso para as crianças, os continuadores desses trabalhos que nós herdámos dos nossos antepassados para que possa haver continuidade na renovação que se faz sempre tanto na família como na própria sociedade em que vivemos.
Dr. Pascoal Mocumbi escuta uma explicação do Administrador do PNG, Dr. Mateus
Mutemba, sob o olhar atento do enfermeiro do PNG, Nildo Chigavale
Gostei imenso de visitar o Centro de Educação Comunitária, tive oportunidade de conversar embora em pouco tempo com as crianças, mas vi nelas o entusiasmo, a descoberta que fazem. Isso é muito salutar.
Senti-me igualmente muito à vontade na Serra da Gorongosa. Tive um sentimento físico e mental de que a visita àquele lugar deu-me mais certeza: começa a haver uma compreensão sobre a importância da fonte de vida, fonte da água que não só é a beleza de ver as águas a caírem, pois aquilo se pode fazer artificialmente, mas é muito mais bonito quando é a própria natureza que se exprime daquela maneira.
A actividade humana não deve destruir aquilo que a natureza nos deu. Pelo contrário, deve garantir que o caminho da água seja livre. E que a flora à volta seja aquela que garante a continuidade de equilíbrio entre as necessidades dos seres humanos, as necessidades das plantas, dos animais, fauna e flora, incluindo também todos aqueles seres vivos desde as borboletas a outros insectos que garantem a replicação das plantas, tudo isso é importante e deve ser mantido.
Alegrou-me igualmente ouvir, através de lendas, através das mensagens que vêm dos líderes comunitários quando nos dizem que já tínhamos um sistema estabelecido tradicionalmente para garantir que esses lugares sejam invioláveis, para proteger a fonte de água que é também a fonte da vida.
Dr. Pascoal Mocumbi e colaboradores do PNG, durante a visita às cascatas do Murombodzi, em plena Serra da Gorongosa
A Serra da Gorongosa é esse lugar de referência cultural tradicional. Portanto, isso realmente me deixou muito, muito confortado. E creio que vou dormir uma noite muito tranquila."
Domingos Muala
Departamento de Comunicação do PNG