O mês de Janeiro marcou o início da colaboração de voluntários do Peace Corps com o Projecto de Restauração da Gorongosa. A voluntária Sinead Brien trabalha nas área de Educação Ambiental e já trabalhou noutras regiões de Moçambique durante dois anos. O Projecto de Restauração do Parque negociou com o Peace Corps/Moçambique o encaminhamento desta voluntária da agência para trabalhar na Gorongosa por um terceiro ano de serviço. Em breve mais voluntários do Peace Corps irão trabalhar no Projecto de Restauração da Gorongosa.

Entrevista com a voluntária do Peace Corps Sinead Brien
1. Onde é que prestaste serviço antes de vir para a Gorongosa?
Sinead Brien: Eu fui professora de Biologia no Instituto Agrário de Chókwè, em Chókwè, Gaza.
2. Fala-nos de alguns dos teus projectos por lá.
SB: Sendo professora de ciências, o meu objectivo não foi apenas ensinar biologia aos estudantes mas também melhorar a sua capacidade de pensamento crítico. Uma maneira divertida de o fazer foi organizar uma Feira Local da Ciência. Organizei, em cada um dos dois anos que passei em Chokwé, uma Feira Local da Ciência, e no primeiro ano, partilhei a coordenação da primeira Feira da Ciência da Região Sul. Através da concretização do projecto de feira da ciência e da apresentação deste, os estudantes aprenderam a usar o método científico a fim de encontrar respostas e soluções práticas para problemas reais.
Também levei a cabo a dinamização de um clube de culinária para estudantes do sexo feminino. As raparigas aprenderam a preparar diversos pratos usando ingredientes locais. Focamo-nos sobretudo nos bolos, biscoitos, bolachas e pães. Através deste clube, as raparigas passaram a ver os atributos culinários como uma mais-valia digna de orgulho e não apenas como uma tarefa de rotina diária que recai sobre as mulheres. O clube também deu às raparigas a oportunidade de discutirem vários temas, desde a nutrição até à saúde sexual. Durante o meu segundo ano, iniciei também um grupo de culinária constituído por rapazes. Os rapazes aprenderam a cozinhar e dispunham de um local confortável para falarem do papel dos géneros.

Durante o meu segundo ano, descobri que a equipa feminina de futebol não tinha treinador e por isso ofereci-me para treiná-la. Treinamos 3 a 5 dias por semana. As raparigas melhoraram a sua técnica futebolística, aprenderam acerca do espírito de equipa e usufruíram de um tempo para apenas se divertirem e jogarem. Também dei educação física duas vezes por semanas na escola local, porque eles não tinham professor de educação física.
3. O que é que te levou a querer continuar por mais um ano na Gorongosa?
SB: Eu gostei imenso dos meus dois anos em Moçambique. Gostei de aprender acerca da cultura, de conhecer a minha família de acolhimento e os meus colegas, vizinhos e estudantes de Chokwé. Eu sabia que apreciaria passar mais tempo em Moçambique e que poderia aprender ainda mais. Contudo, não estava pronta para ficar mais um ano a não ser que houvesse uma razão específica para eu ficar. Senti falta dos meus amigos e da minha família nos EUA e, por outro lado, quero continuar a minha formação académica. Depois, ouvi falar da oportunidade para servir no Parque Nacional da Gorongosa e ajudar a planear e levar a cabo workshops de educação ambiental para crianças, professores e líderes comunitários nas comunidades da zona tampão do Parque. Eu gosto de trabalhar com crianças. Gosto de ensinar, especialmente quando é acerca de ecologia e ambiente. Tenho experiência em trabalhar no sistema de educação Moçambicano e em planificar lições a partir de pouco. O emprego era perfeito. Não havia como deixar passar esta oportunidade.
4. Que línguas falas?
SB: Espanhol e Português.
5. Em que é que a Gorongosa difere dos primeiros locais onde estiveste em Moçambique?
SB: A primeira coisa que notei quando cheguei a Chókwè foi o quão plana é aquela região. Chokwè é reputada pela sua agricultura, especificamente pela produção de tomate e arroz. Adorei Chokwè, mas tive saudades das montanhas. Sou originária da área da Baía de São Francisco, não estou propriamente habituada a zonas planas. A Gorongosa é tudo menos plana. Por outro lado, Chokwè é também uma cidade. É movimentada, cheia de carros, casas de cimento na cidade e há dois mercados principais, muitas lojas, duas escolas secundárias, um instituto politécnico e dois hospitais. Eu vivia fora do centro da cidade mas podia ir a pé até lá e ter acesso a quase todos os recursos de que quisesse. O Parque Nacional da Gorongosa é apenas isso, um Parque Nacional, e por isso não há aqui um mercado. A maior parte das casas que vi nas comunidades da zona tampão são palhotas feitas de bambu com telhados de capim. A maior parte dos carros que vi foram os carros de Parque. A única escola secundária é na Vila Gorongosa. O único hospital também fica na Vila Gorongosa. Numa palavra, parece-me que a Gorongosa é mais rural do que Chókwè.
Mas a maior diferença para mim é a minha posição na comunidade. Em Chókwè, vivia no bairro dos professores da minha escola. Vivia na comunidade em que trabalhava. Na Gorongosa, estou a trabalhar com múltiplas comunidades e a viver no Parque Nacional. Não tenho a mesma relação com cada comunidade na zona tampão que tinha na minha comunidade em Chókwè mas, esperemos, serei efectiva em múltiplas comunidades.
6. Em que é que começaste a trabalhar?
SB: Eu estou a trabalhar com o Sr. Herculano Ernesto e estamos, de momento, a planear um programa que visa aumentar a consciência da comunidade para o Parque Nacional da Gorongosa e para a importância da conservação, tanto para o meio ambiente global como para a própria comunidade. Também nos vamos focar em como é que a comunidade pode ajudar a proteger o Parque e como é que isso irá melhorar o seu bem-estar social. Este programa irá incluir a formação de Clubes Ambientais nas escolas primárias, organização de workshops para professores sobre como incluírem nas suas lições a questão ambiental, workshops para estudantes acerca da ecologia, do ambiente e da importância da conservação e workshops com líderes das comunidades sobre o uso sustentável dos recursos naturais.
Para já, começamos a reunir com os líderes locais e directores de escolas a fim de discutirmos as nossas ideias e obtermos informação das comunidades com as quais gostaríamos de trabalhar, acerca dos programas que já estão a ser desenvolvidos. Também estamos a recolher informação sobre as questões mais importantes para cada comunidade.
7. A que projectos te vais dedicar no futuro?
SB: Eu irei trabalhar na implementação de workshops de educação ambiental no Centro de Educação Comunitário e fazer o seguimento dos workshops organizados, através de vistas às comunidades assim como aos Clubes Ambientais das escolas.
8. Há algum projecto especial que gostarias muito de desenvolver no futuro?
SB: Eu gostaria especialmente de, no futuro, trabalhar com as crianças das comunidades da zona tampão; familiarizá-las com as ideias base da ecologia e entusiasmá-las no que toca à conservação.
Estamos também a planear formar um jardim modelo perto do Centro de Educação Comunitário, a fim de ensinar técnicas de agricultura sustentável e conceitos base de nutrição. Estou muito entusiasmada em mostrar o jardim aos membros da comunidade e, esperemos, vê-los a dar uso a algumas dessas técnicas nas suas próprias machambas e na formação de jardins escolares.
9. De onde és nos Estados Unidos da América?
SB: Sou de Newark, Califórnia, que fica na área da Baía de S. Francisco.
10. Qual é o teu background? Formação escolar, formação diversa, planos de futuro?
SB: Possuo um Bacharelato em Biologia e um Bacharelato em Espanhol, da Universidade de Willamette. Fui interna em dois laboratórios e trabalhei como professora assistente para um curso laboratorial sobre Ecologia, Evolução e Diversidade. Tenho 24 anos e sei que há tantas mais coisas que quero aprender. Ainda não decidi se esta aprendizagem será no sentido da medicina ou da biologia da vida selvagem, ou talvez uma interessante conjugação das duas. Seja o que for que venha a fazer, incluirá algum aspecto ligado ao ensino porque, apesar de não planear uma carreira de professora, adoro ensinar e quero incorporar esta vertente no meu percurso profissional futuro.
11. O que é que contas aos teus amigos e à tua família acerca da Gorongosa?
SB: A Gorongosa é linda, as pessoas são amistosas, já vi alguns animais e toda a gente deveria vir cá visitar-me. Também contei às pessoas lá da terra um pouco acerca da história da zona. Sobretudo, falamos sobre o Projecto de Restauração da Gorongosa e do meu emprego no Departamento de Educação Ambiental. Também falei um pouco sobre as comunidades da zona tampão que tive a oportunidade de visitar até agora. Falei-lhes da seca que estava em curso quando cheguei e das duas semanas de chuva que finalmente se seguiram.
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